quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

SURDO SOU EU !!!

Eu achava que conhecia José Sana, sabia tratar-de um jornalista genial, dono de um estilo só dele, que ousou lançar a DEFATO uma revista de alto nível no Médio Piracicaba, que depois se tornou o PORTAL DEFATO, maior portal de conteúdos do Médio Piracicaba. Ao ler seu livro ECOS DA SUPERAÇÃO fiquei envergonhado pela minha ignorância. Essa é apenas uma partícula da vida do Sana. Meu amigo “sanatório” é um desses grandes homens, que cria mundos e inspira pessoas pelo caminho á medida que avança. Sou grato por ser amigo de um cara desses. Sana viveu 5 gerações e e ainda transborda sonhos e planos. Saltou em riba da “mula queimada” e nunca mais parou ( você vai ter de ler o livro pra entender). Tive oportunidade de presenciar seu trabalho como entrevistador, elegante, culto, espirituoso e confiante. Sabe como deixar o entrevistado completamente à vontade e extrair o que deseja sem constranger. As conversas com ele são dialéticas, tem choques, convergências e aprendizado. Jamais desconfiei de sua surdez. No Livro ECOS DA SUPERAÇÃO ele conta a história divertida e as vezes trágica história da surdez que ele ocultava pra seguir em frente. Convido vocês a lerem a entrevista inteira pois vale à pena. E adquiram o livro. Garanto pra vocês que vai valer à pena. Mas vamos à entrevista...

PENSANDO+ : O título do seu livro é “O Eco da Superação”. Qual foi o momento ou a sequência de momentos que o levou a decidir transformar sua experiência com a surdez em um livro?

JOSÉ SANA — Devo confessar que o meu norte em abordar o tema surdez vem sendo sugerido, devagarinho, cozinhado aos poucos mesmo, pela figura registrada como José de Almeida Sana Júnior, também jornalista, que é CEO de outra empresa. Na verdade, meu filho caçula, o quinto. Ele tocava no assunto sempre, é autor do título e, para concluir, dava seu palpite porque achava notável ser surdo e trabalhar como se fosse normal. A pergunta me leva ao seguinte: vivi uma surdez clandestina, mantive-a inaceitável durante 30 anos, por aí. Estava chegando aos 80 e, então, como memorialista, aprofundei-me no passado e, realmente, me enxerguei como, modéstia às favas, um pequeno herói de mim mesmo. Decidi abrir o verbo.

PENSANDO+ : Ao longo da sua carreira como jornalista você desenvolveu um estilo próprio, entre crônica, ironia sutil e reflexão. Estou correto? Essa verve está presente em O Eco da Superação?

JOSÉ SANA — Meu estilo, se é que o tenho, é mesmo algo que exala alegria. Certa vez uma “entidade espírita” me disse o seguinte: “Você leva tudo em brincadeira, se não mudar não será feliz e nem emprego arrumará” (estava procurando ingressar-me em várias empresas, uma a uma). Acreditei na “mãe de santo”, mas confessei a ela uma verdade que não me dava paz: sempre achei que a felicidade “praticada” no mundo é chata demais.

Sana aos 8 meses de idade.

PENSANDO+ : Você convive com a deficiência auditiva desde a infância. Pode contar pra gente alguns perrengues que surgiram por causa disso e que você decidiu deixar registrados no livro?

JOSÉ SANA — Contei no livro umas cinquenta ou mais situações. Teria mais umas mil guardadas porque faltou espaço. Não sei se contei uma dessas. De vez enquanto faço um joguinho chamado “quina”. Tenho o costume de ganhar uns trocadinhos. Certa vez, a moça da lotérica me disse umas palavras, devolvendo-me meu jogo. Embolei-o e o atirei no lixo. A moça nada disse, apenas saiu de seu lugar, deu a volta no espaço, enfiou a mão no cesto e marcou em sinais quatro números que tinha acertado. Tinha feito uma quadra, o total de R$ 8.600,00 que eu tinha faturado. Ela descobriu que, segundo disse, eu parecia surdo ou doido. Resolvi olhar para os seus lábios e ela aumentou o tom de voz: “José, você ganhou mais de 8 mil reais; terá que ir à Caixa Econômica Federal receber esse dinheiro”. Peguei o jogo embolado e não rasgado, e fui buscar o dinheiro na CEF.

PENSANDO+ : No jornalismo, em reportagens, entrevistas, cobertura política , que técnicas ou adaptações você aprendeu para contornar as limitações da audição sem perder a precisão e o estilo? Pode dar exemplos?

JOSÉ SANA — Primeiro, a técnica jornalística que dá respostas a cinco questões; depois o posicionamento adequado em pedir para o interlocutor olhar-me frente a frente; a seguir, as repetições necessárias. Como exemplo, um dia, em entrevista coletiva, o então reitor da Unifei, Renato Aquino Faria Nunes tentava explicar para repórteres o que seria o projeto que A Unifei desenvolveria em Itabira. Ele só dizia que “era diferente”. Encarei-o, com uma anedota de português que fez muitos rirem. Era a explicação do “Joaquim” ao “Manoel” de como é a máquina de escrever. Joaquim dizia que é diferente. Renato, que se tornou meu amigo de verdade, (acompanhei-o a mais de dez vezes em Brasília, Itajubá, Belo Horizonte e Itabira), fez-me um desafio: “Vá ao Sul da França, a Sophia Antipolis, e conheça lá o maior Parque Científico e Tecnológico do mundo. Ele é o que pretendemos, ou estamos fazendo em Itabira”. Dei-lhe a mão, apertei-a e sai direto para encontrar um professor de francês, Durante menos de um ano estudei com o padre Dikens, que atuava no Bairro Gabiroba, em Itabira. Ele á haitiano e fala vários idiomas, inclusive o francês. Com menos de um ano ele me disse a seguinte frase: Mon ami, tu peux aller en France et parler librement, n'aie pas peur. (Meu amigo, pode ir para a França e falar à vontade, não tenha receio”.

Fomos (Marlete e eu), conheci o projeto do futuro de Itabira. Infelizmente, o mandato de Aquino terminou, não deram importância ao projeto e até suspenderam a ajuda municipal por cinco anos. Uma calamidade contra a nossa terra. Devo esclarecer que naquele tempo eu já usava, como uso, aparelhos e dispositivos próprios para palestras e telefonemas. Tenho, de há muito, 60% de audição, revelam as audiometrias. Eu tinha uma merreca de 5% antes dos 30, quando era chamado de burro.

PENSANDO+ :Vc foi fundador da DEFATO, que começou como revista e evoluiu até se tornar um dos maiores portais do Médio Piracicaba. Que papel a imprensa local desempenhou na sua formação como autor e como essa experiência aparece no livro?

JOSÉ SANA — Sempre fui jornalista, mas agora aprecio dizer ex-jornalista, porque, evidentemente, não tenho o mesmo pique dos anos 40. Com 16 anos, editei um jornal, impresso em BH, chamado “Folha Sebastianense”, de minha terra natal, São Sebastião do Rio Preto. Ao vir morar em Itabira, tornei-me colaborador de “O Passarela”, “Folha de Itabira”, “Hora H”, “Diário de Itabira”, “Rádio Itabira”, “A Notícia” (João Monlevade), “Estado de Minas”, “Diário de Minas (BH) e assessor de imprensa da CVRD (BH e Itabira). Depois “DeFato”, “DeFato Online”, “Notícia Seca” e mais dois blogs. Editei quatro livros, que são experiências. Entâo, a imprensa local, regional, estadual foram os meus preparativos, os ensaios. E ainda dois blogs.

Sana aos 13 anos, em Guanhães.
PENSANDO+ :Em vários trechos você mistura leveza e bom-humor com temas sensíveis. Como você equilibra humor e respeito quando trata de algo tão íntimo quanto uma deficiência? Houve receios de como o público reagiria?

JOSÉ SANA — Se há mistura, como você diz, deve ser unicamente consequência do exercício de cada dia, hora e minuto. O humor é necessário em tudo, porque, como já disse, a felicidade é um saco, ela acaba depressa e nos enrola como trouxas. Eu não penso mais em consequências. Procuro não ofender as pessoas. Sobre a questão “futuro de Itabira” sou muito enérgico porque se trata de uma questão muito séria. Já pensou Itabira tornar-se uma “cidade fantasma?” É o que parece que vai ocorrer, mas os responsáveis (ou irresponsáveis) parecem mudos e surdos, só fazem o contrário.

PENSANDO+ :Que reação você espera provocar no leitor — especialmente entre colegas jornalistas, políticos e leitores de sua região ao contar essa trajetória de superação? Há alguma mensagem que considera essencial?

JOSÉ SANA — Recebo mensagens quando escrevo, mas nem sempre. Existe em Itabira uma “frente para não ler A, B, C” (já me disseram isso). Mas pouco me interessa. Há muito tenho a convicção de que serei muito lido “post mortem”. Isso eu espero que ocorra mesmo. É uma questão de vaidade pessoal, confesso e peço desculpas a quem pensa tratar-se de narcisismo. Morto não bate no peito. Mas não me preocupo mais, principalmente depois de tornar-me octogenário. Nada melhor que ficar velho porque sabemos que as pessoas já estabeleceram conceitos sobre a gente e não mudarão mais. Então, para uns serei péssimo, para outros ruim, para alguns mais ou menos e até bom para uma meia dúzia. Adoto o pensamento “o que pensam de mim não é da minha conta”. Verdade mesmo. Se fosse do meu entendimento eu seria mais doido que iludido ou o contrário.

PENSANDO+ :A surdez mudou a forma como você observa a cidade, a política e as pessoas ao seu redor? Se sim, de que maneira essa nova percepção moldou as crônicas e reflexões do livro?

JOSÉ SANA — No meu livro eu esclareço que vivi 30 anos sem ouvir, ou ouvindo pouco (5%), Então, o que mudou e muda é o próprio mundo. Nós, humanos, nascemos num planeta que é de transformações. Acompanhamos a evolução da natureza mais ou menos intensamente. As pessoas inteligentes avançam mais. Alguns são denominados loucos. Criaram manicômios ou, como me zoava você, chamando-me de “sanatório”. Conclusão: tudo mudou, tudo muda e tudo mudará, não apenas por causa da perda de um sentido, mas porque, como já disse, o mundo é mutável automaticamente.

Sana vereador
PENSANDO+ :Como ex-vereador e figura envolvida com política local, você já enfrentou barreiras além das pessoais, por exemplo, desconfiança, falta de acessibilidade institucional, que você pensa que mereceriam mudanças práticas? O livro traz propostas ou relatos que possam inspirar políticas públicas?

JOSÉ SANA — Eu sempre fui rebelde, achava que todos são obrigados a acreditarem em mim, mantive esse pensamento por longos anos. Como exemplo — e você os pede sempre — vou citar um caso que se encaixa e parece engraçado. Em 1981, a Câmara Municipal resolveu quase que por unanimidade, votar contra um artigo de projeto orçamentário para o ano seguinte, que autorizava o prefeito a manipular quase o total do planejamento sem a necessidade de aprovação dos vereadores. Quando chegou o momento da votação, o que nos surpreendeu foi que tivemos mais votos a favor do que contra. Terminada a votação, tirei o paletó e o dependurei na cadeira. O que queria dizer era que estavam dispensadas as votações, mais claramente, o prefeito não necessitava ver apreciados alguns projetos. No meu discurso frisei “Este paletó xadrez vota em meu nome”. Quando terminou o ano, voltei ao Legislativo senão seria cassado. O paletó ficou lá um tempão.

Sana, presidente da câmara de Itabira
PENSANDO+ :Depois deste lançamento, quais são seus próximos projetos literários, jornalísticos ou sociais. E que conselho você daria a jovens jornalistas deficientes ou não que desejam contar suas histórias publicamente?

JOSÉ SANA — Não vou parar de escrever livros e crônicas, mesmo que não sejam publicados. Espero que, com as transformações que virão, haja evolução e mudanças interessantes para o povo, a maioria. Quem sabe posso contar muitos segredos ainda guardados. Eu tenho um “Anjo da Guarda”, forte e resistente, ele determinará até quando posso contar a história do mundo sem errar, sem vacilar, ser fugir do propósito: um projeto lúcido e corajoso. Sem medo. Narrar o meu porquê de tudo.

PENSANDO+ :Você cita diversas vezes sobre uma estratégia que você tinha pra tomar decisões, que se baseava no entendimento do consciente, inconsciente e sub consciente. Pode explicar isso pros leitores?

JOSÉ SANA — A estratégia é de sempre, perene, infinita. O consciente é aquele em que o mundo vive, cada um com sua verdade, mas que acaba sendo ilusão, como vêm se repetindo os astronautas que passam até meses no espaço. Subconsciente é o que pode ser verdade e é usado para guardar, temporariamente, a verdade que consideramos intocável, a princípio. O exemplo são os dicionários que criei na vida, da natureza, do esquecimento e outros. Tudo fica aí de plantão para ser ou não aprovado como lei. O inconsciente é o poderosíssimo, se o alcançarmos teremos a certeza universal dos fatos. Muito perigoso armazenar algo nele porque é executor, não contesta. Para alcançá-lo precisamos de muito amadurecimento. É alvo de todo mundo.

Sana volta a sala de aula e se forma jornalista
PENSANDO+ :Você teve uma formação religiosa bem imersiva, participava das práticas da igreja, teve uma convivência muito próxima com os padres e isso é claro que influenciando na personalidade e história. Mas além do humor, que é uma das “tintas” que você usa, tem uma rebeldia, uma coragem, uma ousadia que não são característicos do conservadorismo. Como você se definiria? Um conservador rebelde?

JOSÉ SANA — Como tentei explicar na minha história, vivi plenamente em quatro gerações e chego à quinta. Fui muito feliz em tentar me adaptar a cada uma delas. “Ver a Idade Média com os olhos da Idade Média”. Reflita sobre isso. Eu me acostumei a chamar alguns amigos de “Idade Média”, que seria quem é tão conservador, que considera tudo igual, nada mutável. Uma lei da natureza (que está registrada no “dicionário” próprio é conhecida de todos, de Lavoisier (1743-1794), químico francês, criador da lei de transformações ("Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma"). Por aí vê que não sou conservador. Por outro lado, também abomino os chamados “progressistas”. Como praticar leis desconhecidas? Jogando na loteria? De maneira geral, o ser humano é um pé à frente e outro pé atrás. Já fui rebelde e vi que não adianta chegar à sorte. Precisamos tomar decisões e aí funciona o que acabo de dizer um pé à frente e outro pé atrás. Precisamos, também, de sorte quando estamos com decisões gravadas no subconsciente. É o caso do futebol. “Sem sorte, Napoleão Bonaparte morreria atingido por uma carrocinha de pipocas” (Nelson Rodrigues/1912-1980). Conclusão, a regra: trabalhamos “a priori”, mas precisamos chegar no “a posteriori” no fim da questão.

PENSANDO+ : Você citou o livro do Oliver Sacks e tem uma passagem em que ele diz que “todas as deficiências do ser humano tem a correspondente compensação natural”. Por exemplo: você desenvolveu a habilidade de ler lábios. Talvez intuição...assim intuo O famoso sentido do Aranha - conhece a história do Homem Aranha?: Foco...talvez a deficiência auditiva favoreça o foco...menos ruído...Favorece a leitura e o aprendizado.

JOSÉ SANA — Ser surdo acaba não sendo tão ruim como parece. Os fatos negativos são terríveis, você, Martino, leu o livro, percebeu que há fatos os positivos. Por exemplo, neste momento minha avenida está barulhenta. O que fiz e o não surdo nunca faz, a não ser usando tampão. Desliga seu som. Itabira é uma cidade barulhenta, os poderes públicos não veem isso. Já desliguei os aparelhos para falar com você. Outra vantagem: você desenvolve mais sentidos além dos demais, os que chamamos de “sexto sentido”, ou “sétimo”. Mais uma vantagem: você descobre quem gosta de você ou quem apenas o tolera. Fim dos bullyings. Você aprende a “retribuir a gentileza”. Esse sentido necessita de muito amadurecimento. Mais uma vantagem: como você citou, a intuição cresce na direção dos que o amam. Uma nova vantagem: você aprende mais depressa a arte de viver, evita depressão, insegurança. Enfim, você perde como o “homem aranha”, mas ganha com ele. Mais uma vantagem, que vira descoberta: aprendemos o que é Natureza (uma intermediária de Deus).

PENSANDO+ :Vc passou por várias gerações, viu um mundo rústico, ainda sem luz elétrica e outras tecnologias. Atravessou guerras, revoluções, modas. Hoje está na net, com seu blog onde se comunica com o mundo, tem um legado incrível, uma história gloriosa. Quais peripécias o José Sana ainda sonha aprontar?

JOSÉ SANA — Acredito que vou continuar na busca de meus projetos e dou uma dica aos que confiam ou tentem me entender: cada um de nós deve ter um projeto de vida, nele está embutida a “vontade de viver”. Olha, segundo aprendi de alguns filósofos, cientistas e religiosos, ninguém tem medo de morrer. O que tem medo é de chegar ao fim da vida e não ter um projeto, ou projetos, executados. Alguma dúvida, veja este vídeo que deixo para você:
https://www.facebook.com/watch/?v=1116964548326794

José Sana na França - a serviço da educação.
PENSANDO+ :Nem havia a palavra bullying no seu tempo e você já levava pancadas. Havia certo sadismo nas turmas, de botar apelidos pra ridicularizar, os mais fortes e quase sempre mais ignorantes gostavam de demonstrar sua masculinidade batendo nos mais fracos que já tinham algum tipo de anormalidade, segundo os padrões. Mas, você acha que de certa forma, os bullying que sofreu te ajudaram a evoluir? O que pensa sobre o bullying?

JOSÉ SANA — Bullying é o ataque mais forte que um surdo pode enfrentar. Agora, pergunto: e o bullying silencioso? As pessoas conversam em volume alto com o surdo e quando se dirigem aos “normais”, não surdos, abaixa a voz. Isso é uma discriminação inconcebível. Nos outros tempos vividos por mim, na escola, ou na convivência social é um sofrimento sem tamanho. Hoje é crime essa distinção negativa. Não desejo para ninguém tal situação, mas que amadureci e muito por causa disso. No contexto final, o bullying contribuíram na minha evolução humana.

PENSANDO+ : Sua surdez em certos momentos não foi seletiva? Afinal, você entendia bem. Tem certas passagens do livro que nos passa essa impressão. Que você ouvia quando queria...

JOSÉ SANA — Há momentos em que em algumas ocasiões nas quais que não nos esforçamos para ouvir. Evitamos a barulhada do mundo. Itabira é uma das cidades que ocultam, além de poluição do ar e outras, a sonora. E não é, sequer, combatida, fiscalizada pelo poder público. Som volante, aceleração de veículos, buzinação, pega-pega. Engraçado é que só proíbem a soltura de fogos, o resto tudo pode.

PENSANDO+ : A música foi muito presente em sua vida. Percebi que você gostava de participar das bandas de música, tinha uma influência familiar também. Mas como você ouvia música? Tinha de ser volume bem alto né?

JOSÉ SANA — A música requer ou fone de ouvido, ou dispositivo especial. Um show em praça pública não é muito bom. Amo o teatro mas não dá para acompanhar, aí eu perco. Os filmes só com legenda, mas agora já estão desenvolvendo novas tecnologias, dizem que melhora muito. Olha, Marcos, o surdo perde e ganha, ele melhora a percepção, a natureza o repõe o que não concede ao “normal”. O cego, por exemplo, desenvolve o tato com muita segurança; o surdo melhora a psicologia, a sensibilidade. Não há volume alto para o surdo. Gritar com surdo é ignorância. Normalmente a sua leitura labial também é ótima. Tive muita dificuldade em aprender inglês, mesmo com aparelho. Em menos de um ano de estudo com um professor, consegui aprender o idioma francês por ser uma língua neolatina. Fui à França e fiz uma matéria sobre a Unifei.

PENSANDO+ : Vc negou sua surdez durante anos por sobrevivência, por temer que assim fazendo seria segregado, não conseguiria galgar certos postos, não teria como chegar onde chegou. Acha que foi tempo perdido? Que deveria ter tomado uma atitude antes?

JOSÉ SANA — Você disse o correto. Perdi um emprego em João Monlevade, na antiga Belgo-Mineira, por trabalhar em laboratório, que exigia audição aprimorada, isso depois de 11 meses de trabalho. Perdi uma colocação em concurso da Cemig, em 1965, quando o entrevistador me eliminou, depois de ser aprovado em todas as etapas. Aí ele me flagrou em esforço angustiante para ouvir as palavras dele. Para esclarecer ainda mais que a surdez me perseguiu, nunca consegui emprego em empresa alguma e só consegui chegar a um ponto razoável graças ao fato de eu ser patrão de mim mesmo. Isso já passou porque agora eles me eliminam pelos cabelos brancos. Quanto ao “tempo perdido”, não teve, não houve isso. Tempo bem aproveitado. Há momentos em nossas vidas nos quais temos que aprender na dor, quando se torna difícil no amor.

PENSANDO+ : A partir do momento que você começou a usar aparelhos auditivos, imagino que sua vida teve um ganho de qualidade imenso. Qual é o seu equipamento auditivo hoje? Tem ouvido música...rs?

JOSÉ SANA — Uso aparelhos marca “ReSound”, importados da Dinamarca. Uso também dois dispositivos adquiridos separadamente, para acompanhar palestras ou palestrar e para ouvir pelo telefone. Hoje já existem no mercado aparelhos que já são vendidos com os dispositivos embutidos neles. Não sei se disse isto a você, acho que no livro: o uso de aparelho credencia você a participar de reuniões, debates, ministrar aulas etc., mas ainda existem as pessoas discriminam o usuário de aparelho, acham que ele não funciona bem. Muita qualidade de vida, apesar de certos detalhes negativos. Infelizmente, o surdo é conhecido no mundo como um “burro”, pensam que sua inteligência reduz com o seu uso, e é o contrário. Gosto de músicas e ouço sempre, já toquei em bandas de valsas, dobrados, sambas, já levei cacetadas nos dedos que me fizeram enfiar ratos nos instrumentos da Banda de Meu Avô, quanto eu era criança.

PENSANDO+ :Seu livro conta uma história de resiliência, de uma pessoa com apetite incrível por aprender, se especializar em diversos campos, se adaptar a diferentes ambientes, caindo, se reerguendo, encontrando novos caminhos, se reinventando o tempo inteiro.

JOSÉ SANA — Quase tudo isso que você disse. Não há vitória no Planeta Terra se não houver luta. Aqui nesse planeta que até o nome é errado (tem 2/3 de água e somente o restante é terra) deveria se chamar Planeta Água. Estou rabiscando umas linhas sobre a competividade de viver. Nascemos sem pedir para nascer e morremos sem desejar isso. Mas estou pesquisando e encontrando, quem sabe consigo, respostas para muitos porquês.

PENSANDO+ :Vc tem feito palestras sobre suas vivências? Tem ministrado cursos? Eles são virtuais ou presenciais

JOSÉ SANA — De vez em quando me convidam para certos bate-papos em escolas, associações, grupos de trabalho, Lions, Rotary etc. Lecionei por um tempo e agora estou mais lendo e escrevendo, tenho a memória cheia para retirar dela material. Para o reinício de aulas nas escolas já tenho uma agenda recebendo pedidos. Vou com o máximo prazer.]

PENSANDO+ : Quem quiser adquirir o livro tem de fazer o quê?
JOSÉ SANA - Para adquirir o livro há duas opções: uma, pede diretamente no CLUBE DE LEITURA - Anexo ao Centro Cultural. Mando o telefone daqui a pouco. Ou pela AMAZON - https://bit.ly/oecodasuperacao

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

PUTA MOVIMENTO - Entrevista com a Antropóloga Débora Barcellos

 


O “PENSANDO +” nasce como um espaço para reflexão crítica, escuta qualificada e diálogo com ideias, através de matérias e entrevistas com pessoas que pensam e agem diferente. Um blog e coluna que se propõe a pensar a cultura, as pessoas e as disputas simbólicas que atravessam a sociedade contemporânea.

Para inaugurar este espaço, conversamos com Débora Barcellos, escritora e antropóloga, professora na Universidade dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), nascida em João Monlevade e com trajetória acadêmica e ativista dedicada à escuta e as causas das trabalhadoras do sexo.

Débora lança agora o livro “PUTA-MOVIMENTO: uma homenagem”, obra que resulta de anos de aproximação com movimentos sociais das trabalhadoras do sexo e de uma pesquisa marcada pelo respeito, pela seriedade analítica e pelo compromisso político com sujeitos historicamente silenciados.

Nesta entrevista, conversamos sobre antropologia, linguagem, moralidade, mercado sexual, transformações tecnológicas, conservadorismo e, sobretudo, sobre o corpo como território político. Uma conversa que pode incomodar — e por isso mesmo, necessária.

Convido vocês a ler até o final, pois vale a pena...

Pensando + : Como surgiu o seu interesse pela antropologia? Houve algum episódio, leitura ou experiência pessoal que despertou esse olhar para o estudo das culturas e das relações sociais?

Débora Barcellos : Em 2014, quando eu havia acabado de me mudar para Diamantina, voltei a estudar. Ingressei no Bacharelado em Humanidades, na UFVJM e me encantei pelas aulas de Introdução à Antropologia. O professor da disciplina, André Borges, orientou minha iniciação científica e meu trabalho de conclusão de curso da graduação, de modo que tive um contato mais intenso com autoras e autores da Antropologia. Na ocasião, comecei a forjar um olhar mais antropológico sobre o mundo, pesquisando junto a trabalhadoras da coleta de material reciclável.

Pensando + : E quando a temática das trabalhadoras do sexo entrou no seu horizonte de pesquisa? Foi uma escolha acadêmica planejada ou um caminho que se impôs a partir de vivências?

Débora Barcellos :Essa temática entre na cena no mestrado em Ciências Humanas, também na UFVJM. Em meus trânsitos por Diamantina, identifiquei que havia um silenciamento de memórias de mulheres que atuavam como prostitutas, quando retratados alguns marcos temporais e lugares históricos conectados ao meretrício no século passado. Decidi, então, perseguir algumas histórias particulares que pudessem dimensionar aquelas existências. Bem antes desse processo, desde muito nova eu sempre me sentia incomodada com a maneira como a sociedade, de forma generalizada, utiliza “o lugar” ou “o papel” da puta para controlar todas as mulheres. Um exemplo de como isso funciona é a classificação de mulheres a partir de oposições, como boas/más, para casar/“para comer”, honestas/desonestas, puras/impuras, santas/pecadoras e por aí vai... tais classificações polarizam expectativas quanto a condutas, comportamentos, ideias, escolhas etc., além de produzir estereótipos como o de mulher “bela, recatada e do lar” e “esposa troféu”. Como consequência, modos de existir que se distanciam desses ideais socialmente produzidos, colocam mulheres sob o risco de serem qualificadas por termos considerados pejorativos, a exemplo de “puta”. Comigo, isso já deixou de funcionar há muito tempo...rs. Por fim, o que aconteceu para que eu me aventurasse pelo tema foi a conjunção de lugares por onde caminhei e questões sociais que já me incomodavam.

Pensando + : No livro “PUTA-MOVIMENTO: uma homenagem”, você narra sua aproximação com o movimento social de trabalhadoras do sexo. Na sua avaliação, esse movimento produziu conquistas reais e avanços concretos ao longo do tempo?

Débora Barcellos :Em espaços de lutas muito árduas, qualquer conquista, por menor que seja, deve ser celebrada. O movimento das trabalhadoras sexuais brasileiras começa a se organizar junto de outros movimentos que surgiram ou se fortaleceram ali pelos fins da ditatura civil-militar. Talvez com muito mais dificuldade e visibilidade infinitamente menor do que os outros, por motivos óbvios – o trabalho sexual, ou a prostituição, como queiram chamar, é um assunto interditado, um tabu em nossa sociedade. Mas levando em conta mais de 40 anos desde o início dessa articulação, há pontos importantes a serem destacados. Desde a epidemia mundial de HIV-Aids, trabalhadoras sexuais possuem um papel importantíssimo de atuação junto ao Ministério da Saúde e, também, nos territórios. Levando em consideração que a saúde sexual é indispensável à segurança e à prática do trabalho que exercem, é válido evidenciar que quem atua no mercado sexual costuma levar bastante a sério a prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis. Outra conquista importante foi a incorporação das/dos profissionais do sexo na Classificação Brasileira de Ocupações do Ministério do Trabalho e Emprego, no ano de 2002. Isso confere a quem atua no ramo o direito de participar da seguridade social, por meio do recolhimento mensal como autônomo e, assim, acessar alguns direitos, da mesma forma que outras classes trabalhadoras. Tudo se deu com ampla participação de figuras importantes do movimento das trabalhadoras sexuais, como Gabriela Leite (que faleceu em 2013), Lourdes Barreto (PA) e Fátima Medeiros (BA). Cabe esclarecer que a existência do direito assegurado não significa que as pessoas o acessem. Em função do estigma e do preconceito, há muitas questões importantes e desafiadoras que permeiam essa categoria laboral. Muita gente que atua no mercado sexual sequer sabe da existência desse direito. Outras tantas pessoas trabalham de maneira sigilosa, fora de seus locais de origem e sem o conhecimento de familiares e pessoas próximas, fazendo com que se declarar como profissional do sexo diante de uma instância do Estado não seja algo tão simples.

Ainda assim, atualmente, muitas trabalhadoras sexuais que lidam bem com a exposição se articulam para além dos interesses específicos da categoria, participando ativamente de órgãos e conselhos, municipais, estaduais e federais ligados ao campo da saúde, da cultura, da segurança pública, da promoção de direitos das mulheres. Um exemplo... em 2025 foram eleitas duas representantes para a Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa. Sim!... Temos trabalhadoras sexuais idosas que seguem atuando – politicamente e no mercado sexual.

Pensando + : A palavra PUTA ocupa um lugar central no seu trabalho. Em uma sociedade conservadora, ela costuma funcionar como um rótulo de degradação moral do corpo feminino. Por outro lado, há tentativas de suavização da linguagem, com termos como “job”, por exemplo. Estaríamos evoluindo para uma maior aceitação?

Débora Barcellos : Bem... essa forma de classificação, “job”, é bem contemporânea e tem sido muito utilizada por pessoas mais jovens. Na verdade, há várias formas de auto-referenciamento. Há, também, movimentos constantes e fluidos de terminologias distintas, como “modelo” ou “acompanhante”, geralmente utilizadas para tentar escapar do estigma. Mas gosto de replicar algo que ouvi de uma interlocutora, uns anos atrás: "para a sociedade, é tudo puta!". O termo “job” não circula muito em puteiros, cabarés. Menos ainda entre as mulheres mais velhas. E por mais que a tradução de job seja trabalho, acaba sendo mais praticamente uma atualização daquele velho ditado que diz que a prostituição é o "trabalho mais antigo do mundo". Isso nunca teve nada a ver com a legitimação social da atividade. Há muita resistência não apenas quanto a legitimar o trabalho sexual como trabalho, mas, também, em olhar para as pessoas que atuam nesse ramo para além dos moralismos, achismos e preconceitos. Profissionais do sexo são pessoas. Pessoas que sonham, que lutam, que têm família, que amam e que são amadas, que pagam impostos, que circulam entre nós, que experimentam as dores e as delícias de existir. Talvez, pessoas que jamais imaginaríamos ou jamais saberemos que se aventuram ou já se aventuraram pelo mercado sexual.

Pensando + : A partir da sua convivência e escuta das profissionais do sexo, que conclusões você tira sobre as motivações para permanecer no trabalho sexual? Trata-se apenas de necessidade econômica ou existe também escolha, vocação, especialização, domínio técnico do prazer — assim como em outras profissões do cuidado e do corpo?

Débora Barcellos :Apesar de meus interesses de pesquisa não serem, necessariamente, as questões intrínsecas ao exercício do trabalho sexual, e de minha produção acadêmica não abordar tais detalhes, ao longo de quase 10 anos de pesquisa nesse campo é possível observar algumas perspectivas, sem necessariamente trata-las como conclusões. É comum que a flexibilidade de horários e os ganhos superiores a trabalhos com carteira assinada sejam mencionados como “motivo” da permanência. Do ponto de vista da necessidade econômica, penso que se trata de algo intrínseco ao sistema econômico capitalista. Quem não é milionário ou herdeiro precisa trabalhar para levar o pão para casa, não é mesmo? Mas o elemento moral atua muito quando o trabalho em questão é o trabalho sexual. Vivemos numa sociedade em que o livre exercício da sexualidade não é encorajado, além de ser considerado por muitas pessoas como pecado. Já pensando na dimensão estritamente econômica, gosto muito da perspectiva da filósofa Silvia Federici, que afirma que o trabalho sexual é apenas mais um trabalho precário no capitalismo, dentre muitos outros. Há, também, uma frase de Gabriela Leite que é muito instigante: “Qualquer profissional usa uma parte do seu corpo para trabalhar”. Qual parte você usa? Quero ressaltar que não se trata de romantizar o trabalho sexual. Não é um trabalho como outro qualquer, principalmente porque o preconceito atua de forma muito cruel sobre quem o exerce. Sempre tem uma mão estendida e segurando uma pedra pronta para ser atirada em Genis e em Marias Madelenas. E arrisco dizer que talvez isso seja o que há de pior no trabalho sexual: a maldade que vem dos outros, o ódio gratuito que desumaniza.

A respeito da vocação, domínio técnico, especialização, há uma gama de trabalhos possíveis dentro do mercado sexual. Desde atendimentos virtuais e venda de conteúdos audiovisuais, até a troca sexual presencial, propriamente dita – sempre mediadas por trocas econômicas. Como em toda prestação de serviço, o que cativa o cliente é a qualidade do que é oferecido. As trabalhadoras investem sim na competência técnica, se especializam na arte de proporcionar prazer, principalmente por meio da prática. Algumas trabalhadoras sexuais com quem pesquiso também entendem sua atuação como trabalho de cuidado. A troca sexual em si pode ser vista do âmbito do cuidado mas, além disso, há clientes que demandam também escuta ativa, conselhos ou a mera companhia. Outro aspecto interessante é que pessoas com deficiências diversas, físicas e intelectuais, também são parte do público atendido. Uma vez que a sexualidade desse grupo em específico também é um tabu social, o debate acaba adentrando por outros caminhos, bastante sensíveis, a propósito. Tudo isso reforça a ideia de que o trabalho sexual tem, sim, uma dimensão que pode conectá-lo com o cuidado.

Pensando + :Uma curiosidade conceitual: você utiliza majoritariamente os termos no feminino. Como ficam os profissionais do sexo masculinos e outras identidades de gênero dentro desse mercado e dentro da pesquisa antropológica?

Débora Barcellos : Trata-se de uma escolha política esse uso dos termos no feminino. E que está para além do fato de que minhas interlocutoras se identificam como mulheres, sejam elas cis ou trans. Assim como se pressupõe que as mulheres devam se sentir sempre contempladas em qualquer texto ou discurso que generalizam todas as pessoas sob termos masculinos, minha ideia é me valer do contrário, num jogo de linguagem que não tem a pretensão de desafiar ninguém. Isso não é uma prática tão incomum nas Ciências Sociais, especialmente na Antropologia. E não se trata de exclusão, mas de incluir de uma forma diferente. Espero que pessoas pertencentes a identidades de gênero que não a feminina se sintam plenamente incluídas e contempladas pela minha escrita.

Pensando + : Em um de seus trabalhos anteriores, você pesquisou o Beco do Mota, em Diamantina — espaço histórico da boemia mineira. Durante décadas, cidades inteiras conviveram com zonas de prostituição institucionalizadas, muitas vezes toleradas silenciosamente pela moral dominante. Eram as boates azuis ou casas da luz vermelha. Hoje, com celular, redes sociais e Pix, esse cenário mudou radicalmente. As casas de prostituição tendem a desaparecer?

Débora Barcellos : Acredito que não. Além de haver mercado para todo tipo de serviço prestado nesse universo – seja no formato virtual ou presencial – os cabarés, zonas, boates preservam uma atmosfera própria, que atrai.

Pensando + : Do ponto de vista social e moral, você acredita que a hipocrisia em torno da prostituição diminuiu? Será que um dia o trabalho sexual vai ser reconhecido como a fisioterapia por exemplo?

Débora Barcellos : Não penso que tenha diminuído. E nem creio que vá diminuir. Vivemos um momento mundial de ascensão do conservadorismo. Conservadorismo e hipocrisia sempre andaram de mãos dadas ao longo da história. Quanto ao trabalho sexual ser reconhecido como um trabalho possível no campo da saúde, isso acontece de forma tímida em alguns países. Na China e na França, por exemplo, há associações autônomas que conectam profissionais do sexo a pessoas com deficiência, com a intenção de promover e garantir os direitos sexuais dessas pessoas. Para quem não sabe, o exercício da sexualidade é um direito humano fundamental. Talvez não seja uma realidade tão distante assim, quando pensamos para além da realidade brasileira, claro.

Pensando + : Para quem deseja aprofundar os temas abordados no seu livro, que leituras você indicaria — acadêmicas ou literárias?

Débora Barcellos : Eu já li tanta coisa boa, de tanta gente boa... vamos lá! Apenas algumas. Tenho muitas, muitas outras. Vou me ater aos livros! E aqui estão mescladas obras acadêmicas, literárias e escritas autobiográficas de trabalhadoras sexuais. “Putafeminista”, de Monique Prada. “Puta história”, de Fátima Medeiros. “Puta autobiografia”, de Lourdes Barreto. “Filha, mãe, avó e puta: a história de uma mulher que decidiu ser prostituta”, de Gabriela Leite. “Puta tem família”, de Thaís Helena Leite. “Calibã e a bruxa”, de Silvia Federici. “Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar e a resistência anarquistas – Brasil (1890-193)”, de Margareth Rago. “Cabaré”, de Natânia Lopes. “Tudo é rio”, de Carla Madeira. “Hilda Furacão”, de Roberto Drummond. “Meretrizes e doutores: saber médico e prostituição no Rio de Janeiro (1840-1890)”, de Magali Engel. “A família da prostituta”, de Jeferson Bacelar.

Pensando + : Como adquirir o livro PUTA-MOVIMENTO: uma homenagem? E quem quiser acessar seu trabalho anterior sobre o Beco do Mota, há links ou canais disponíveis?

Débora Barcellos : O “Puta-movimento: uma homenagem” teve uma primeira tiragem que tenho chamado de intimista, com quase todos os exemplares destinados a presentear lideranças de associações e coletivos de trabalhadoras sexuais de vários lugares do Brasil. Foi publicado pela Ofícios Terrestres Edições e acredito que logo em breve estará disponível no site da editora, que também é responsável pelo meu livro anterior, “Memórias do Beco: maternidade e prostituição” – fruto da dissertação de meu mestrado em Ciências Humanas.

Mas para além dos livros, minha produção acadêmica é de domínio púbico – um compromisso ético e social, uma vez que minha trajetória de pesquisa se construiu em universidades públicas. A dissertação do mestrado, intitulada “Memória marginais do Beco do Mota: mulheres e crianças no cenário da prostituição”, está disponível no repositório da UFVJM. Em breve, a tese de meu doutorado em Antropologia, defendida em novembro de 2025 e intitulada “Não somos sozinhas no mundo! Temos filhos, temos família! – maternidades e feituras de família entre trabalhadoras sexuais” estará disponível no repositório da Universidade de Brasília.

Pensando + : Seu trabalho é, ao mesmo tempo, acadêmico e político. Existe espaço na universidade para pesquisas que assumem claramente um posicionamento ético e militante?

Débora Barcellos : Eu não acredito em neutralidade científica. Nem mesmo na área das Exatas. Há sempre fatores mobilizadores para se pesquisar ou se discutir sobre isso ou aquilo. No caso da Antropologia, o corpo de quem pesquisa adentra aos territórios. Nos valemos da etnografia que, grosso modo, é um registro descritivo de grupos sociais. O trabalho etnográfico possui um comprometimento político intrínseco, uma vez que é realizado junto, entre as pessoas com quem pesquisamos. Os processos de construção da pesquisa são intersubjetivos, dialógicos. Tecemos relações. Essa forma de produção científica não se dissocia das perspectivas encontradas em campo e nem das pessoas. Afinal, se a produção acadêmica tem sua função social, o posicionamento não solapa a ética. Nesse sentido, ao invés de militante, acredito que o meu fazer antropológico pode ser classificado como engajado, uma vez que conjuga posicionamento, compromisso político e rigor científico.

Pensando + : O que mais te atravessou emocionalmente durante essa trajetória de pesquisa? 

Débora Barcellos : Eu ouvi da banca de defesa de doutorado que meu trabalho é um trabalho de escuta. Então, acredito que eu consegui realizar com êxito esta tarefa. E exatamente por isso eu construí muitos laços e vínculos que permanecem, ainda que os momentos de pesquisa se encerrem. Isso foi o que mais me atravessou e atravessa emocionalmente: eu parei para ouvir, mas também fui ouvida, acolhi e fui acolhida, partilhei afetos, sorri e chorei junto de muitas pessoas. Talvez aqueles versos dos Novos Baianos possam traduzir um pouco esses atravessamentos todos: “Vou mostrando como sou e vou sendo como posso. Jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos. E pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto...”. Encerro agradecendo o espaço para esse tema tão sensível, difícil de ser abordado e que provoca desconfortos em quase todas as pessoas. E quero reforçar todo meu respeito às pessoas trabalhadoras sexuais.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

PENSANDO +

REFLEXÕES CONTEMPORÂNEAS.

Matérias e entrevistas especiais. 

Vcs estão preparados ???

Em breve a primeira matéria ...



SURDO SOU EU !!!

Eu achava que conhecia José Sana, sabia tratar-de um jornalista genial, dono de um estilo só dele, que ousou lançar a DEFATO uma revista de ...